A Mágica Papa de Arroz – por Sonia Hirsch

b2308Ela pode ser grossa ou rala, cremosa ou cheia de caldo: não importa, desde que seja de arroz cozido durante quatro a seis horas em fogo muito baixo e panela grossa tampada. Uma parte de arroz, seis partes de água – ou mais – e pronto: eis aí um dos alimentos mais medicinais de que se tem notícia.

Facílima de digerir e de assimilar, fortalece a energia geral (o Chi) e o sangue, harmoniza o meridiano triploaquecedor e ajuda a eliminação de toxinas através da urina. Aí sua única contra-indicação: para pessoas que estejam urinando demais, ou seja, mais de três ou quatro vezes por dia e uma vez à noite, a papa de arroz piora tudo por ser diurética. Fora isso, suas possibilidades medicinais são infinitas devido às combinações que permite.

BUDA FAZIA COM LEITE E MEL e comia dizendo que ela dava dez coisas: vida, beleza, facilidade, força, bexiga limpa, boa digestão, fim da fome, da sede e dos gases, e ainda a bênção do Céu…

COM TRIGO EM GRÃO nutre Fogo, beneficia e acalma o coração, refresca, baixa a febre.

COM ARROZ MOTI, OU SÓ DE ARROZ MOTI tonifica o meridiano triploaquecedor, reforça a energia geral, recompõe a pessoa que tem indigestão, diarréia e vômitos.

COM FEIJÃOZINHO VERDE, MOYASHI refresca, baixa a febre, e é especialmente boa contra o fogo do verão.

COM FEIJÃO AZUKI remove a umidade, portanto os edemas; boa em caso de gota, de retenção de urina ou ausência dela, e em outros problemas de rim e bexiga.

COM INHAME é nutritiva e tonificante.

COM RABANETE é digestiva e refresca os órgãos da digestão.

COM CENOURA é ótima em caso de disenteria crônica e indigestão, evita gases e acalma a tosse.

COM AIPO refresca e desintoxica.

COM CEBOLINHA VERDE aquece e tonifica, ótima contra diarréia crônica.

COM A PARTE BRANCA DO ALHO-PORÓ cura a diarréia fria dos idosos.

COM GENGIBRE SECO é boa contra deficiência de energia com sintomas de frio no aparelho digestivo como diarréia, anorexia, vômito e indigestão.

COM FUNCHO elimina gases.

PROPORÇÃO DOS ADITIVOS

Vinte por cento da quantidade de arroz cru, no caso de grãos; parte igual à de arroz cru, no caso de vegetais; metade do total de arroz cru, no caso de vísceras. Sal, herói? Só uma pitadinha.

A papa de arroz predileta de Bob Flaws, um dos autores mais consultados neste trabalho, é para o café da manhã e leva tâmaras vermelhas, gengibre fresco em fatias e mel. “Tâmaras são sedativas e acalmam o espírito”, diz ele, “além de fortalecerem a digestão. Gengibre faz circular a energia e o sangue, reforça o yang e aquece a região média do tronco. Mel nutre o coração, acalma o espírito e lubrifica os intestinos. A isto às vezes acrescento nozes para tonificar o yang do rim e nutrir o cérebro, e castanhas para tonificar o yin do rim e fortalecer a essência vital (o Jing).”

Quando for comer a papa de manhã, deixe cozinhando durante a noite, em fogo bem baixinho, sobre uma chapa. Da primeira vez parece esquisito e arriscado – mas tudo tem uma primeira vez, não é mesmo?

A papa de arroz reforça especialmente a energia vital das pessoas de Metal (você vai entender isso lendo a terceira parte do livro, se é que já não leu). Buscando esse reforço, as pessoas de Terra podem fazer com 50% de painço; as pessoas de Fogo podem fazer com 50% de milho verde e 10% de sementes de gergelim; as pessoas de Agua podem fazer com 50% de queijo de soja e 10% de feijão azuki; as pessoas de Madeira podem usar partes iguais de arroz, trigo e cevada.

Os bebês, as crianças pequenas e os velhinhos podem tomar só a parte líquida ou cremosa que fica no topo, e a papa pode ser peneirada para bebês e velhinhos cujos intestinos estejam fracos.

A sopa de arroz do Pai José, base da dieta sem dieta do livro Deixa sair (da nossa própria e modesta lavra), é prima-irmã destas papas. Leva cebola, alho, aipo, alho-poró, bertalha e verdinhos frescos.

ARROZ: INTEGRAL OU BRANCO?

A moda do arroz integral nasceu nos anos cinqüenta, quando George Ohsawa e Michio Kushi resolveram divulgar a macrobiótica. Vinham do Japão. Mas nem no Japão, nem em qualquer outro lugar da Ásia, nem em região alguma do mundo onde o prato básico fosse arroz, nunca se comeu o arroz inteiramente integral – assim como nunca se comeu o arroz inteiramente branco. O ideal, eles sabiam, era um arroz semipolido, sessenta ou setenta por cento integral; facílimo de achar no Oriente, onde os comerciantes de cereais faziam o polimento de acordo com a preferência do freguês; só que na América não existiam máquinas para isso, então eles enalteceram o integral mesmo. Só agora, herói, quarenta anos depois, é que os macrobióticos pós-modernos estão levantando a questão e contando a história direito. Porque na verdade o arroz semipolido é muito mais fácil de mastigar e de digerir, mais saboroso, tão nutritivo quanto o integral, e não tem o perigo do excesso de fibras… Que, como você talvez já saiba, são ricas num tal de ácido fítico que impede a assimilação de certos minerais, o que equivale a dizer que cereais integrais são bons só até certo ponto. Demais, podem até subnutrir, quem diria! Pois é. Vivendo e aprendendo. E retificando, sempre.”

Sonia Hirsch – Manual do Heroi Ou A Filosofia Chinesa na Cozinha

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10 comentários sobre “A Mágica Papa de Arroz – por Sonia Hirsch

  1. Consigo compreender com tão clara explicação as orientações de um profundo conhecedor da medicina praticada no interior da Coreia do Sul que viveu em Campinas ! Sábio, incompreendido , gênio forte , morreu em Campinas aos 66 anos de idade.
    O texto da Sonia Hirsh me fez lembrar-me dele com saudades.
    Obrigada aos que divulgam preciosidades e sabedoria

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